quinta-feira, junho 25, 2009

Lama, suor e óleo diesel.


Sou muito saudosista. Os tempos idos sempre me atraíram mais que a modernidade. E se um objeto antigo vier permeado por alguma história de meus antepassados ganha minha total atenção. Certa vez em uma de minhas andanças pela fazenda encontrei, no meio do mato, os restos de uma cerca que meu pai alegou ter sido erguida por meu avô. Dois mourões antigos. Resquícios de uma porteira de varas. Coisa muito velha que já não tinha qualquer serventia na fazenda. Mas a meu ver coisa antiga não precisa ter serventia, e se uma aplicação fosse imprescindível eu criaria uma. E criei. Há muito queria fazer um obstáculo para saltar a cavalo. Os dois mourões seriam perfeitos e ainda acrescentaria um ar histórico familiar a minha brincadeira. O problema era que os troncos eram quase tão pesados quanto antigos. E ninguém se prestaria a me ajudar num esforço daqueles por nada. Decidi que utilizaria o trator na empreitada. Claro que meu pai, prudentemente, foi absolutamente contra. Proibiu-me de utilizar a máquina, pois o lugar ficava no meio do brejo e caso atolasse seria extremamente difícil resgatar o possante. Relutei, mas foi irredutível. Eu teria a oportunidade de descobrir por quê.

domingo, junho 21, 2009

Surfando Karmas e DNA

A família de meu pai sempre teve um comportamento um tanto abrutalhado. Talvez por ter origem integralmente rural. Entre as brincadeiras preferidas de meus tios, oitenta por cento são reprovadas pelos psicólogos. Os outros vinte, pelos ortopedistas. Um tio em particular, que INFELIZMENTE já faleceu, era especialmente sádico. Mesmo depois de casado dificilmente era visto sem seu estilingue. De todas as brincadeiras cruéis a que me submetia a que eu mais detestava era aquela em que ele, sem qualquer aviso, gritava a todos pulmões que eu estava pisando em uma cobra. Meu coração chegava a gelar. Mas os costumes de nosso clã exigiam que eu me portasse como um homem. Afinal eu já tinha quase sei anos de idade. Então decidi que passaria a ignorá-lo. Resistiria ferozmente e não mais cairia em seus engodos. Certo dia eu acompanhava o fanfarrão e meu pai numa caminhada pela fazenda quando, em dado momento, a calmaria do campo foi irrompida pelos berros de meu tio que mais uma vez alegava que eu estava pisando numa cobra. Mas agora as coisas seriam diferentes. Eu já era um homem. Não me deixaria tapear facilmente. Segui em frente decidido a vencê-lo em seu mundo de torturas psicológicas. A cada novo grito que ele dava eu me sentia mais forte e confiante. Mas de repente toda minha convicção desmoronou. Meu pai também me alertou. E apesar de compartilhar os mesmos genes sádico com meu tio essa era uma brincadeira que meu pai jamais faria. Quando tive coragem de olhar para baixo a cobra já estava toda embaraçada em minhas pernas. Em poucas ocasiões fui tão ágil e senhor de meu esfíncter anal. Nem sei como não me caguei todo. Quando finalmente me desvencilhei da cobra e recobrei o fôlego para pronunciar alguma coisa desatei a xingá-lo com todos os palavrões que conhecia. E já naquela época a secção de expressões impróprias para menores de meu vocabulário era praticamente completa. Nunca mais ele faz esse tipo de brincadeira comigo. Pode ser que por ter falecido antes de uma próxima oportunidade. Sei que não foi pelos palavrões. Ele adorava me fazer xingar. Prefiro acreditar que algo o tocou naquele dia. Nunca faço esse tipo de brincadeira com meus sobrinhos. Animais peçonhentos são perigosos. E como já ficou comprovado um acidente pode acontecer. Prefiro utilizar bichos, digamos, mais inofensivos... A genética é irrevogável.

quarta-feira, junho 17, 2009

Pedagogia eqüina.

Meu pai sempre teve boas teorias a respeito de quase tudo na vida. Pelo menos sempre achou que tivesse. Entre seus equipamentos pedagógicos favoritos podem-se listar martelos, enxadas, marretas. Enfim alguma ferramenta bastante dura e bem pesada. Nunca fez distinção entre a racionalidade de um garoto de seis anos e um cavalo velho. Até acho que a seu ver o cavalo devesse ter uma postura mais coerente perante a sociedade. Talvez pela idade. Vai saber... Numa certa ocasião na fazenda quando terminávamos de arrear os animais para a lida com o gado meu pai passou por traz de um dos cavalos. É pertinente dizer que dos ensinamentos rurais o que diz: “não passe atrás do cavalo, principalmente ao alcance de sua pata” é o que primeiro se aprende. Mas na pressa de fazer o serviço acho que se descuidou. Nunca imaginei que um cavalo senil cujo vigor físico o fez ser batizado de “Preguiça” pudesse desferir um coice com brutal energia. E que pontaria. Pegou meu pai pelo meio. Na aquarela de cores que tomaram o rosto do careca se destacaram o vermelho e o roxo. O ódio era notório. Sem raciocinar nem por um segundo sequer agarrou um cabo de enxada e bateu no pobre animal enquanto teve forças. Ao final da surra estava tão suado e esbaforido que parecia que tinha sido ele e não o cavalo quem havia apanhado. Temi que tivesse um infarto ou que um aneurisma explodisse dentro de sua cabeça . Após o lamentável episódio voltamos ao trabalho. No dia seguinte novamente nos preparávamos para a lida quando mais uma vez lá estava meu pai se dirigindo para trás de Preguiça. Quando o alertei para não fazê-lo me disse com a entonação de um sábio: “Depois de ontem ele aprendeu a não dar mais coi...” Nem teve tempo de terminar a frase. Desta vez Preguiça adicionou a sua maldade habitual a sede de vingança pelas bordoadas do dia anterior. E o golpe foi bem pior. Só a mira permaneceu a mesma. E a pancadaria lamentável se repetiu. Mas depois desta ele finalmente aprendeu. O pangaré? Não! Meu pai. Nunca mais passou atrás de outro cavalo. Preguiça morreu distribuindo cacetadas nos cavaleiros incautos. Como era duro aquele cavalinho.
.

terça-feira, junho 09, 2009

A morte pede carona.

No domingo minha mãe me intimou a acompanhá-la em uma visita a fazenda. Mesmo a contra gosto não tive como recusar. Há muito vinha inventando desculpas para me esquivar de tal empreitada. Fomos à fazenda e tudo corria bem. Tudo indicava que o dia terminaria dentro da mais pura normalidade. Quanta ingenuidade. Idas à fazenda dificilmente terminam com normalidade. Quando já nos encaminhávamos para casa fomos surpreendidos por uma conhecida moradora local que ansiava por carona. Parei o carro prontamente. Como não ajudar uma velha conhecida? Quando pronunciou os primeiros versos pude notar pelo arrastar das palavras que se encontrava um tanto embriagada. Não pude recriminá-la. Eu mesmo ainda não estava totalmente recuperado de uma ressaca. Conseqüência de uma festinha na noite anterior. Além do mais já a conheço há quase vinte anos e não me lembro de uma dúzia de vezes em que não estivesse alcoolizada. Acomodada no banco de traz batemos em retirada.

segunda-feira, junho 08, 2009

Infeliz experiência

Sempre tive aversão a bandido. A mais inofensiva contravenção já me deixava super irritado. Quando o assunto era drogas então, eu era absolutamente Caxias. Totalmente intolerante. “Bando de maconheiros safados!!!” “ Um câncer na sociedade!! ! “ Foi só aos vinte anos que vi o primeiro cigarro de maconha. Lembro-me dos colegas da faculdade (na época eu estudava administração) me convidarem a dar um tapinha. Recusei sem nem pestanejar. Abandonei a administração e fui cursar medicina veterinária. Áreas totalmente distintas. Mas quando o quesito era droga habitavam todos no mesmo caldeirão. Universitários parecem ser movidos a maconha. Com o transcorrer do curso os laços de amizade vão se estreitando. E a intolerância, diminuindo. Perto do fim do curso já consentia que consumissem a malfadada perto de mim. À medida que a intolerância diminuía invariavelmente a curiosidade aumentou. E no churrasco de encerramento do curso, como uma mocinha de filme americano que entrega sua donzelice no grande baile, resolvi experimentar um entorpecente.

sábado, junho 06, 2009

Terror na Madrugada.

Desde bem pequeno nunca me ajustei muito bem à vida social. Não gosto da maioria das pessoas e sempre preferi agir sozinho, fazendo as coisas do meu jeito, me esquivando de qualquer trabalho em equipe. Talvez por isso a Medicina Veterinária sempre figurasse em minha vida como sendo a primeira opção profissional. Lidar com animais sempre me pareceu mais simples. Nada de julgamentos, muito pouca reação. Logo depois de formado fui substituir uma amiga em alguns plantões. Rapidamente descobri que os anos de faculdade não haviam me preparado para tamanha aflição. Numa madruga fui acordado de supetão pelo enfermeiro para uma consulta. Instantaneamente fui tomado por uma onda de insegurança e desengano que se intensificou quando avistei no final do corredor o suposto paciente balançando seu rabinho e esbanjando total saúde e disposição. Que diabos aquele animal poderia ter de errado para fazer com que seus donos achassem que era necessário levá-lo ao veterinário em plena madrugada de domingo? Seria eu quem teria de descobrir.

sexta-feira, junho 05, 2009

Nostalgia

Às vezes acordo rasgando de saudades de coisas que nunca fiz
mas que lembro nitidamente de tê-las feito ontem mesmo.

Essa saudade de uma vida que nunca tive só me faz esquecer
e perder um pouco mais da única que tenho.

E sempre que me esqueço da vida que tenho agora
desprezo quem perdeu parte da sua só para conceber a minha.

Percebendo isso sinto ainda mais saudades daquela vida que não
vivi, quando o que existe hoje ainda nem era imaginável.

Motoqueiro Selvagem

Há cerca de um ano fui aprovado num concurso público. Como não sou dado a rotina do transporte coletivo decidi adquirir um meio de transporte próprio. Com meus recursos escassos e o apoio de meu espírito jovem e aventureiro a escolha foi óbvia. Qual homem jovem nunca sonhou em pilotar uma motocicleta? A sensação de liberdade. O vento no rosto. Não tive dúvidas. A escolha pelo modelo foi mais fácil ainda, afinal “La Poderosa” já figurava na garagem aqui de casa. Era do meu irmão mais novo. Emprego novo, motoca nova (nem tão nova assim). Eu estava com tudo. Mas como a alegria é passageira, com menos de um mês...

quinta-feira, junho 04, 2009

Triste sina??

Durante anos vive assombrado pelo fantasma da calvície. Não importava para qual de meus ascendentes ainda vivos eu olhasse ela estava lá. Mesmos os tios mais jovens já apresentavam os primeiros sinais do que parecia ser um carma. E assim foi. Um após o outro todos caíram como que numa fila de pedras de dominó. Por muito tempo pensei numa maneira de me esquivar de tal destino, mas ao observá-los percebi que todos se resignavam e alguns até passavam a ostentar sua carequice de forma imponente. Compreendi que tal comportamento se devia ao exemplo de nosso patriarca, meu avô. Seu caráter e retesa de comportamento pareciam tê-lo livrado de qualquer vaidade mundana. E por admirá-lo ao extremo e sempre querer seguir seus passos também eu já tinha me resignado. Já havia decidido que quando minha hora chegasse e minha cabeleira me deixasse a aceitaria com bravura. Então semana passada tudo mudou. Como de costume fui a casa de meus avós para ouvi-los contar histórias do passado, e em meio a um dos causos meu avô me fez uma revelação inesperada. Disse-me que de todas as alterações que o desgaste do tempo (já se vão 77 anos) e que o trabalho pesado haviam causou em seu corpo, não foram as rugas, nem os males da chagas, tão pouco a perda de parte da visão era o que mais o chateava. De todas as alterações a única que ele ainda lamenta é a perda de seus cabelos. Naquele momento, como que num toque de mágica, ele retirou toda a culpa de meu peito. Bem ali na minha frente, o careca mor da família revelava que também ele não queria a carequice. Aprendi nesse dia que caráter e retesa de comportamento não são avessos à vaidade. E eu já tomei minha decisão. Finasterida aí vou eu!!!!