quarta-feira, março 17, 2010

Cívica hipocrisia


          Odeio hipocrisia. E digo isso sabendo que muitos dos que realmente me conhecem irão pensar: Ué! Sentou no próprio rabo? Sei que muitas vezes também sou hipócrita. Mas sendo ou não sendo, odeio (e tal ódio me ajuda a melhorar). Hoje, logo pela manhã, fui à casa da minha sogra para devolver seu celular que peguei por engano por ser muito parecido com o meu (salvo pelo detalhe de que o dela e rosa e o meu preto. ??? Me confundi). Dado o horário nem preciso dizer que o transito estava um caos. Mas como meu carro ainda não é alado me resignei, aumentei o volume do “toca cds” e continue. Primeira, segunda, freia, para. Primeira, freia, para. Primeira, s e g u n d a, t e r c e i r a, freia, FREeia, FREEEEIA! Ufa! Parei... Lá pelas tantas (mas nem tantos quilômetros assim) um intelectual numa caminhonete preta me deu uma fechada. Até aí tudo bem todos tem pressa...
          Mas não se contentando, o graduado nas artes da inteligência passou a adotar uma direção cada vez mais arriscada e impertinente. Direita, esquerda, força de um lado, força pelo outro, pisca o farol. Como se a imensa fila de carros à nossa frente fosse desaparecer com o “abracadabra” de sua buzina. Só depois de algum tempo, e de tê-lo ranqueado nas mais diversas categorias de substantivos e adjetivos pejorativos que conheço foi que percebi, colado na traseira de seu carro, um adesivo que vez com que para mim ele passasse a ser apenas hipócrita. Bem grande escrita em branco decorada com o desenho de uma alegre criancinha estava a palavra “PAZ”. O imbecil teve a capacidade de hastear uma bandeira para a qual ele próprio esta pouco se lixando. Por um instante até ponderei poder se tratar de um desses adesivos tipo: “deixe de fumar”. Do tipo que vai liberando doses controladas de nicotina no sangue do candidato a ex-fumante. Mas logo percebi que não devia se tratar disso, afinal para alcançar tal fim o mentecapto deveria ter colado o adesivo na própria testa e não no carro. Estando próximo ao vácuo onde deveria estar seu cérebro talvez as propriedades apaziguadoras do adesivo pudessem fazer algum efeito. Prevejo que a esta altura vários de meus conhecidos devem estar dizer: “Mas você também dirige assim!” E confesso que muitas vezes (muitas mais do que gostaria de assumir) dirigi de forma irresponsável. Mas uma coisa os que me conhecem também sabem. Nunca colaria no meu carro ou onde quer que fosse um adesivo que prega exatamente o contrário do que faço ou penso. Esse sentimento de revolta e exatamente o mesmo que sinto quando vejo uma passeata contra a criminalidade (como aquela muito bem ilustrada no filme: “Tropa de Elite" trecho) composta por um monte de usuários de entorpecentes, tendo como ponteiro sempre algum político corrupto ou alguma recente vítima da violência, que até ter tido sua vida atingida nunca havia se preocupado sinceramente com a miséria alheia. Um adesivo, assim como uma passeata, não resolve nada. Talvez até resolvesse se todos pisassem sobre as próprias cabeças numa tentativa extrema de embutir um pouco de civilidade neste povo altamente individualista, mesquinho, vaidoso e hipócrita. Para os que acharem minha idéia louca e dolorosa sugiro um pouco de educação.

Foto: Bruno Mancinelle

Um comentário:

  1. Falando em hipocrisia, meu caro cronista, acho que meu blog hoje deu lugar à hipocrisia, infelizmente. www.blogdodiogenis.blogspot.com, a matéria que ilustra o dia de hoje é exatamente a campanha "Ficha Limpa" que a grande maioria dos parlamentares está apoiando, mas que na verdade, como diz o Ildemir, é utopia...ou, como diz vc. é hipocrisia. Hipocrisia ou utopia, como seria bom que fosse verdade...
    Um grande abraço
    Diógenis Santos

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