quarta-feira, março 24, 2010

Tolerância intolerável

          Tenho a impressão que o povo brasileiro (principalmente o brasiliense) não só recebe o que pode suportar como também tem o que merece. Nossa cidade esta cada vez mais violenta, a cultura cada vez mais cara e distante, as escolas sitiadas com alunos amedrontados e professores desvalorizados, os hospitais literalmente desabam sobre as cabeças dos enfermos que se amontoam nos corredores, o transporte público cada vez mais parecido com transporte de carga. Por outro lado nossos políticos estão cada vez mais ricos, mais ousados e cínicos (juram sobre o nome dos filhos se desmentem com falso pranto e depois são reeleitos com louvor). Roubam descaradamente, tapeiam, mentem e metem a mão no dinheiro público, montanhas e montanhas de dinheiro. E pelo menos no mundo da falcatrua política não há discriminação, nem de sexo, nem idade, tampouco religião. O bandido é novo, é velho, é velha, é crente, ateu. Tem dinheiro público para todo mundo. Aí, quando o improvável acontece, quando finalmente todo o lixo vem à tona e entope os bueiros da moral e da tolerância deixando a Justiça sem saída e os bandidos finalmente têm um pouco do muito que merecer o inconcebível acontece.
          Nesse momento, quando parece que finalmente podemos nos alegrar, vem o cidadão mais humilde, o mais prejudicado, o que nunca teve qualquer facilidade por parte da vida, defender o salafrário do político. E frases inimagináveis saem das bocas mais improváveis. Das bocas que sempre tiveram menos comida, as que têm menos dentes, as que conhecem o menor número de palavras. Justo das bocas mais sofridas e miseráveis é que vêm as frases de tolerância intoleráveis: “Coitado do homem, não precisava disso tudo, é humilhante, ele é o Governador”. Os mais (e me desculpem a palavra) “fudidos” são justamente os que têm mais pena daqueles que os roubam a vida e a dignidade. Que raios de habilidade ou poder é esse que o político safado e bandido tem para ser capaz de roubar, enganar, tapear e “fuder” com a vida do povo e ainda ser merecedor de sua clemência e compaixão????

Foto: Jorge Garcia

Um comentário:

  1. Muito bem colocado meu caro. É surpreendente, como isso é uma realidade em nosso país. Eu costumo dizer que "corrupto do que o político é o eleitor" que vende seu voto por qualquer coisa que lhe possa dar a entender que ele, o eleitor, está levando vantagem. Se nós, digo nós, porque tenho que me incluir nessa, na hora do voto fôssemos mais honestas conosco e com nossos semelhantes, muitos desses malufs, sarneys e arrudas não seriam reeleitos.
    Um grande abraço e belo texto.

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