quinta-feira, junho 25, 2009

Lama, suor e óleo diesel.


Sou muito saudosista. Os tempos idos sempre me atraíram mais que a modernidade. E se um objeto antigo vier permeado por alguma história de meus antepassados ganha minha total atenção. Certa vez em uma de minhas andanças pela fazenda encontrei, no meio do mato, os restos de uma cerca que meu pai alegou ter sido erguida por meu avô. Dois mourões antigos. Resquícios de uma porteira de varas. Coisa muito velha que já não tinha qualquer serventia na fazenda. Mas a meu ver coisa antiga não precisa ter serventia, e se uma aplicação fosse imprescindível eu criaria uma. E criei. Há muito queria fazer um obstáculo para saltar a cavalo. Os dois mourões seriam perfeitos e ainda acrescentaria um ar histórico familiar a minha brincadeira. O problema era que os troncos eram quase tão pesados quanto antigos. E ninguém se prestaria a me ajudar num esforço daqueles por nada. Decidi que utilizaria o trator na empreitada. Claro que meu pai, prudentemente, foi absolutamente contra. Proibiu-me de utilizar a máquina, pois o lugar ficava no meio do brejo e caso atolasse seria extremamente difícil resgatar o possante. Relutei, mas foi irredutível. Eu teria a oportunidade de descobrir por quê.
 Voltamos para casa e a idéia de ter aqueles velhos pedaços de madeira não saiu da minha cabeça. Pouco mais tarde meu pai foi resolver uns problemas com um vizinho. Era minha oportunidade. Em meus cálculos simplistas levaria o Ford até um ponto seguro amarraria os troncos com um cabo de aço e os fisgaria como numa pescaria. Simples assim. Mas os problemas logo começaram. Não haviam pontos seguros por ali. E o cabo de aço? Não tinha a metade do comprimento necessário. Mas não ia desistir. Passando pelo meio do mato e da lama pilotei o trator até lá. Só quando apeei pude notar que a lama já chegava aos aros das rodas. Não me renderia. Já estava na merda mesmo. Amarrei a carga e parti. Quando finalmente achei que estava saído do lamaçal só tínhamos avançado uns dois metros. Estava completamente atolado. Novamente desci do trator, fiz cálculos, avaliei a situação. A única chance era aproveitar uma decida que certamente daria embalo ao trator e estaríamos livres da lama. Não seria tão fácil. Lá embaixo havia uma erosão de quase um metro de profundidade. Bem no meio do caminho. Já até tinha visto carros saltarem valetas maiores. Tratores? Nem nos melhores filmes de ação. Mas era a única opção. Ou isso ou dar o gostinho a meu pai de dizer: “Eu avisei”. O sensato seria ficar com a segunda opção, mas quem cobiça dois pedaços de madeira velhos não é sensato. Virei a cara do bicho para a ladeira, acelerei tudo que pude. O urro do motor ecôo pela mata a fora e uma nuvem de fumaça negra nos cobriu. Quase fiz uma prece. Mas não tinha tempo e fui com tudo. Na verdade nem sei como foi que saltamos o tal buraco. Eu estava de olhos fechados. No fim só tive tempo de colocar o que sobrou do trator de volta no lugar como se nunca tivesse saído dali. Até parece.... Bastou meu pai olhar para que os quase cem quilos de lama sobre o trator me denunciassem. No fim das contas o que importava não era ele não descobrir e sim eu conseguir. E ficaram magníficos meus mourões. Pena que só saltei a cavalo sobre eles umas duas vezes.

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