quinta-feira, setembro 03, 2009

Em carne víbora


Tenho certeza
o maior inimigo
habita-me a carne
entranhado, vulgar

e em cada recanto
onde possa escondido
regozija vaidoso
Subtraiu-me o lugar

Dilatando-me olhos
Seu silencioso alarido
estoca meus medos
a se me eriçar

e qual fera acuada
armado em bote
embebido em veneno
perdi-me no lar

Mas se foi de bom grado
que hospedei o inimigo
quando em pranto sofrido
me deixei transmutar
deve ser abraçado
e a ele fundido
o fazendo amigo
que nos vou levantar




Foto: SubKuLT

segunda-feira, agosto 03, 2009

Grande constatação.

Ando com medo de parecer previsível. Pois quase a totalidade de meus textos tem alguma relação com a fazenda. Por outro lado, é incrível como uma vida na roça é campo fértil para a literatura (literatura!?). Ainda mais quando vivida na companhia de meu pai. São tantos episódios dignos de nota, que não tenho como ignorá-los. O problema é que minha criatividade vai se esvaindo. Cada vez mais me resigno em descrever apenas o fiel desenrolar dos fatos. Que afinal, me parecem ser suficientemente surpreendentes e até difíceis de acreditar. Como no episódio em que eu, meu pai e meu irmão, íamos à fazenda levando material de construção para reformar a velha casa. A quantidade de material necessária para o serviço pedia umas duas viagens num grande caminhão trucado, mas meu pai, aliado à sua calculadora hp, constatou que com um pouco de aperto nosso pequeno e velho Mercedes 608 daria conta do recado, em apenas uma viagem. Logo na saída do depósito a traseira do diminuto possante já havia tocado o chão um par de vezes. E os rangidos da frágil estrutura não me deixavam acreditar que ele permaneceria inteiro por muito mais tempo. Até porque o caminhãozinho já nem era tão inteiro. Mas desafiando qualquer lei da física, da lógica, da mecânica e/ou da coragem o bendito caminhão se arrastando bem mais do que rodando já chagava bem próximo a fazenda quando um último desafio se ergueu a nossa frente. Uma grande serra. Subida íngreme de quase meio quilômetro de extensão. Era óbvio que não conseguiríamos. Mas o caminho era esse e prosseguimos. Que o caminhão pararia antes da metade da ladeira era fato e nunca me iludi. E quando parou eu continuava sereno como nunca. Eu não contava era que os freios não aguentariam. Começamos a descer a serra de ré. Só que agora os únicos no comando eram a gravidade e a vontade do próprio caminhão. Quando tudo parecia perdido e eu já até me reconfortava com a ideia da morte, meu pai conseguiu dar um golpe desesperado no volante fazendo com que o caminhão batesse no barranco e parasse. Claro que não antes de empinar como um mustang selvagem e andar quase uns dez metros com as rodas dianteiras no ar. Quando recuperei a força das pernas e finalmente tive equilíbrio para descer do caminhão meu pai fez sua grande observação: “Não devíamos os três correr aquele risco juntos.” Não é incrível que a seu ver o único problema em toda aquela situação era estarmos os três machos da família juntos, correndo o risco de deixar a ala feminina desamparada por nossas mortes? Não me recordo de qualquer observação a respeito do mega excesso de carga, do péssimo estado dos freios ou dos quase trinta anos de idade do caminhão. Se eu ainda for acrescentar algum detalhe lúdico a uma história dessas ninguém mais acredita.

sexta-feira, julho 17, 2009

Apertado como lata de sardinha?

Apesar de ser aficionado por pescaria e até ter algumas histórias dignas de pescador para contar nunca fui fã do peixe propriamente dito. Mas contra toda expectativa um dia desses fiquei a fim de comer sardinha. Saudosismo dos tempos de criança. Nostalgia pelas antigas merendas da escola. Mesmo o ato de abrir a latinha daquela forma peculiar tem um quê de recordação. Mas quando vislumbrei o conteúdo toda magia se perdeu. Havia duas miseras piabinhas no interior da embalagem que àquela altura mais parecia um aquário de parque temático. Uma imensidão oceânica onde elas poderiam nadar livremente. É impressionante como o conteúdo das embalagens tem diminuído ao longo dos anos enquanto os preços, por outro lado continuam os mesmos. Aliás, até aumentaram. Até o rolo de papel higiênico sofreu cortes. Como se nossos intestinos estivessem mais curtos ou nosso esfíncter, mais estreito. E os velhos ditados perdem até o porquê de existir.

quarta-feira, julho 01, 2009

Maquiagem.


Há pouco resolvi configurar um perfil num site de relacionamentos. Mais ou menos no mesmo período que decidi colocar meu plano de ter um blog em funcionamento. Quem não quer estar em contato com os amigos, trocar experiência e até desilusões? Foi então que uma série de dúvidas me perturbou. Quais fotos devo postar? Como me descrever de maneira criativa e descolado? Quais preferências compartilhar? O que devo omitir? Em decorrência de tais dúvidas me veio um pensamento. Quem realmente sou? Em busca de uma resposta investiguei os perfis de alguns candidatos a amigo e percebi que a maioria parecia pensar como eu. Destacando quase sempre em seu perfil apenas as coisas supostamente positivas. Sua criatividade. Seu interesse pelas diversas artes. Enfim, algo arbitrariamente classificado como relevante para sociedade. Fiquei me perguntando quanto daquilo que eu queria retratar era realmente eu. Logo percebi que a grande maioria das coisas se relacionava na verdade à pessoa que quero ser e a que querem que eu seja. Ocultamos nossas fraquezas, nossas dúvidas. Lutamos contra nossas características mais humanas. Como se buscássemos nos tornar algo quase celestial. Divinos. Tentamos a todo custo fugir da nossa posição animal. Inúmeras vezes irracional, inclusive. Representando na maior parte do tempo. Uma maquiagem tão pesada que muitas vezes confunde o próprio ator. Em meio a tais devaneios logo me lembrei de uma observação atribuída a Darwin:
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“Devemos, no entanto, reconhecer, como me parece, que o homem com todas as suas nobres qualidades... ainda sofre em sua prisão corpórea a indelével marca de sua humilde origem.”
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quinta-feira, junho 25, 2009

Lama, suor e óleo diesel.


Sou muito saudosista. Os tempos idos sempre me atraíram mais que a modernidade. E se um objeto antigo vier permeado por alguma história de meus antepassados, ganha minha total atenção. Certa vez em uma de minhas andanças pela fazenda encontrei, no meio do mato, os restos de uma cerca que meu pai alegou ter sido erguida por meu avô. Dois mourões antigos. Resquícios de uma porteira de varas. Coisa muito velha que já não tinha qualquer serventia na fazenda. Mas a meu ver coisa antiga não precisa ter serventia. E se uma aplicação fosse imprescindível, eu criaria uma. E criei. Há muito queria fazer um obstáculo para saltar a cavalo. Os dois mourões seriam perfeitos e ainda acrescentariam um ar histórico familiar à minha brincadeira. O problema era que os troncos eram quase tão pesados quanto antigos. E ninguém se prestaria a me ajudar num esforço daqueles por nada. Decidi que utilizaria o trator na empreitada. Claro que meu pai foi absolutamente contra. Proibiu-me de utilizar a máquina, pois o lugar ficava no meio do brejo e caso atolasse seria extremamente difícil resgatar o possante. Relutei, mas foi irredutível. Eu teria a oportunidade de descobrir por quê. Voltamos para casa e a ideia de ter aqueles velhos pedaços de madeira não saiu da minha cabeça. Pouco mais tarde meu pai foi resolver uns problemas com um vizinho. Era minha oportunidade. Em meus cálculos simplistas levaria o Ford até um ponto seguro, amarraria os troncos com um cabo de aço e os fisgaria como numa pescaria. Simples assim. Mas os problemas logo começaram. Não haviam pontos seguros por ali. E o cabo de aço? Não tinha metade do comprimento necessário. Mas não ia desistir. Passando pelo meio do mato e da lama pilotei o trator até lá. Só quando apeei pude notar que a lama já chegava aos aros das rodas. Mas não me renderia. Já estava na merda mesmo. Amarrei a carga e parti. Quando finalmente achei que estava saído do lamaçal percebi que só tínhamos avançado uns dois metros. Estava completamente atolado. Novamente desci do trator, fiz cálculos, avaliei a situação. A única chance era aproveitar uma decida que certamente daria embalo ao trator e estaríamos livres da lama. Não seria tão fácil. Lá embaixo havia uma erosão de quase um metro de profundidade. Bem no meio do caminho. Já até tinha visto carros saltarem valetas maiores. Tratores? Nem nos melhores filmes de ação. Mas era a única opção. Ou isso ou dar o gostinho a meu pai de dizer: “Eu avisei”. O sensato seria ficar com a segunda opção, mas quem cobiça dois pedaços de madeira velha não é sensato. Virei a cara do bicho para a ladeira. Acelerei tudo que pude. O urro do motor ecoo pela mata a fora e uma nuvem de fumaça negra nos cobriu. Quase fiz uma prece, mas não tinha tempo e fui com tudo. Na verdade nem sei como foi que saltamos o tal buraco. Eu estava de olhos fechados. No fim só tive tempo de colocar o que sobrou do trator de volta no lugar como se nunca tivesse saído dali. Até parece.... Bastou meu pai olhar para que os quase cem quilos de lama me denunciassem. Mas no fim das contas o que importava não era ele não descobrir e sim, eu conseguir. E ficaram magníficos meus mourões. Pena que só saltei a cavalo sobre eles umas duas vezes.

domingo, junho 21, 2009

Surfando Karmas e DNA

A família de meu pai sempre teve um comportamento um tanto abrutalhado. Talvez por ter origem integralmente rural. Entre as brincadeiras preferidas de meus tios, oitenta por cento são reprovadas pelos psicólogos. Os outros vinte, pelos ortopedistas. Um tio em particular, que infelizmente já faleceu, era especialmente sádico. Mesmo depois de casado dificilmente era visto sem seu estilingue. De todas as brincadeiras cruéis a que me submetia a que eu mais detestava era aquela em que ele, sem qualquer aviso, gritava a todos pulmões que eu estava pisando em uma cobra. Meu coração chegava a gelar. Mas os costumes de nosso clã exigiam que eu me portasse como um homem. Afinal, eu já tinha quase sei anos de idade. Então decidi que passaria a ignorá-lo. Resistiria ferozmente e não mais cairia em seus engodos. Certo dia eu acompanhava o fanfarrão e meu pai numa caminhada pela fazenda quando a calmaria do campo foi irrompida pelos berros de tio João que mais uma vez alegava que eu estava pisando numa cobra. Mas agora as coisas seriam diferentes. Eu já era um homem. Não me deixaria tapear facilmente. Segui em frente decidido a vencê-lo em seu mundo de torturas psicológicas. A cada novo grito que ele dava eu me sentia mais forte. Confiante. Mas de repente toda minha convicção desmoronou. Meu pai também me alertou. E apesar de compartilhar os mesmos genes sádico com meu tio, essa era uma brincadeira que meu pai jamais faria. Quando tive coragem de olhar para baixo a cobra já estava toda embaraçada em minhas pernas. Em poucas ocasiões fui tão ágil e senhor de meu esfíncter anal. Nem sei como não me caguei todo. Quando finalmente me desvencilhei da cobra e recobrei o fôlego para pronunciar alguma coisa, desatei a xingá-lo com todos os palavrões que conhecia. E já naquela época a secção de expressões impróprias para menores de meu vocabulário era praticamente completa. Nunca mais ele faz esse tipo de brincadeira comigo. Talvez por ter falecido antes de uma próxima oportunidade. Sei que não foi pelos palavrões. Ele adorava me fazer xingar. Prefiro acreditar que algo o tocou naquele dia. Nunca faço esse tipo de brincadeira com meus sobrinhos. Animais peçonhentos são perigosos. E como já ficou comprovado, um acidente pode acontecer. Prefiro utilizar bichos, digamos, mais inofensivos. A genética é irrevogável. 

Foto: Nunes de Freitas

quarta-feira, junho 17, 2009

Pedagogia eqüina.

Meu pai sempre teve boas teorias a respeito de quase tudo na vida. Pelo menos sempre achou que tivesse. Entre seus equipamentos pedagógicos favoritos pode-se listar martelos, enxadas, marretas. Enfim, alguma ferramenta bastante dura e bem pesada. Nunca fez distinção entre a racionalidade de um garoto de seis anos e um cavalo velho. Até acho que a seu ver o cavalo devesse ter uma postura mais coerente perante a sociedade. Talvez pela idade. Vai saber. Numa certa ocasião na fazenda, quando terminávamos de arrear os animais para a lida com o gado, meu pai passou por traz de um dos cavalos. É pertinente dizer que dos ensinamentos rurais, o que diz: “não passe atrás do cavalo!" é o que primeiro se aprende. Mas na pressa de fazer o serviço acho que se descuidou. Nunca imaginei que um cavalo senil, cujo vigor físico o fez ser batizado de “Preguiça”, pudesse desferir um coice com brutal energia. E que pontaria. Pegou meu pai pelo meio. Na aquarela de cores que tomaram o rosto do careca se destacaram o vermelho e o roxo. O ódio era notório. Sem raciocinar nem por um segundo sequer, papai agarrou um cabo de enxada e bateu no pobre animal enquanto teve forças. Ao final da surra estava tão suado e esbaforido que parecia que tinha sido ele e não o cavalo quem havia apanhado. Temi que tivesse um infarto ou que um aneurisma explodisse dentro de sua cabeça. Após o lamentável episódio voltamos ao trabalho. No dia seguinte novamente nos preparávamos para a lida, quando mais uma vez, lá estava meu pai se dirigindo para trás de Preguiça. Quando o alertei para não fazê-lo, me disse com a entonação de um sábio: “Depois de ontem ele aprendeu a não dar mais coi...” Nem teve tempo de terminar a frase. Só que desta vez Preguiça adicionou à sua maldade habitual a sede de vingança pelas bordoadas do dia anterior. E o golpe foi bem pior. Só a pontaria permaneceu a mesma. E a pancadaria lamentável se repetiu. Mas depois desta ele finalmente aprendeu. O pangaré? Não! Meu pai. Nunca mais passou atrás de outro cavalo. Preguiça morreu distribuindo cacetadas nos cavaleiros incautos. Como era duro aquele cavalinho.
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terça-feira, junho 09, 2009

A morte pede carona.



No domingo minha mãe me intimou a acompanhá-la em uma visita a fazenda. Mesmo a contragosto não tive como recusar. Há muito vinha inventando desculpas para me esquivar dessa empreitada. Fomos à fazenda e tudo corria bem. Tudo indicava que o dia terminaria dentro da mais pura normalidade. Quanta ingenuidade. Idas à fazenda dificilmente terminam com normalidade. Quando já nos encaminhávamos para casa fomos surpreendidos por uma conhecida moradora local que ansiava por carona. Parei o carro prontamente. Como não ajudar uma velha conhecida? Quando ela pronunciou os primeiros versos pude notar pelo arrastar das palavras que se encontrava um tanto embriagada. Não pude recriminá-la. Eu mesmo ainda não estava totalmente recuperado de uma ressaca. Consequência de uma festinha na noite anterior. Além do mais, já a conheço há quase vinte anos e não me lembro de uma dúzia de vezes em que não estivesse alcoolizada. Acomodada no banco de traz, batemos em retirada. De tempos em tempos notei que uma lufada de álcool tomava conta do interior do carro. Àquela altura só passar perto de um bafômetro já poderia levar todos nós para cadeia. Só me dei conta que a cachaceira egoísta trazia uma garrafa de canha escondida na bolsa quando já se deliciava com o último gole. Imagine o estrago que uma garrafa de pinga pode fazer em uma senhora com pouco menos que quarenta quilos. Quando chegamos onde deveria ser sua parada ela já não conseguia pronunciar uma única palavra. O endereço? Era como se nunca estivesse estado ali. Após várias tentativas frustradas de encontrar seu destino descemos do carro para mais uma incursão. Enquanto minha mãe procurava em vão pelo endereço, eu estava segurando a pinguça que já não se aguentava em pé. Notei que se encontrava meio inquieta, mas na expectativa de descobrir seu destino não prestei muita atenção. Quando dei por mim ela já estava com as calças na altura dos joelhos e desatou a urinar. Ali estava eu no meio da rua de mãos dadas com uma velha bêbada, seminua e completamente urinada. Ponderamos se devíamos deixá-la na delegacia ou despachá-la em algum hospital. Lembro-me de ter cogitado estrangulá-la e depois desovar o cadáver num beco escuro. Conclui que a melhor opção, se é que havia alguma boa opção, era voltar à fazenda e entregá-la a sua família. Imprimi toda velocidade que o bom senso e a integridade estrutural do carro me permitiam. Mas só até ouvir o que meu cérebro se recusou a identificar como sendo um peido. Aquilo ecoo como uma sirene de emergência. A desgraçada já estava completamente mijada... Toda prudência me abandonou. Ignorando as imperfeições da estrada (e não eram poucas) acelerei ao máximo. Quando finalmente chegamos de volta à fazenda e a pé-de-cana desceu do carro, ainda teve tempo de resmungar: “Tenho que ir para cidade.” No que depender de mim ela morrerá sem sair outra vez da roça.

Saldo da corrida:
Dez litros de gasolina: R$26,30
Lava - rápido (pintura e estofamento): R$50,00
Revisão da suspensão: R$ 300,00
Ser visto no meio da rua de mãos dadas com uma bêbada seminua e toda mijada, DEFINITIVAMENTE não tem preço.
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segunda-feira, junho 08, 2009

Infeliz experiência

Sempre tive aversão a bandido. A mais inofensiva contravenção já me deixava super irritado. Quando o assunto era drogas então, eu era absolutamente Caxias. Totalmente intolerante. “Bando de maconheiros safados!” “Um câncer na sociedade!" Foi só aos vinte anos que vi o primeiro cigarro de maconha. Lembro-me dos colegas da faculdade (na época eu estudava administração) me convidarem a dar um tapinha. Recusei sem nem pestanejar. Abandonei a administração e fui cursar medicina veterinária. Áreas totalmente distintas. Mas quando o quesito era droga habitavam todos no mesmo caldeirão. Universitários parecem ser movidos a maconha. Com o transcorrer do curso os laços de amizade vão se estreitando. E a intolerância, diminuindo. Perto do fim do curso já consentia que consumissem a malfadada perto de mim. À medida que a intolerância diminuía invariavelmente a curiosidade aumentou. E no churrasco de encerramento do curso, como uma mocinha de filme americano que entrega sua donzelice no grande baile, resolvi experimentar um entorpecente. Afinal, não seria isso que faltaria naquela festa. Um virgem como eu deveria agir com parcimônia. Então me decidi pelo lança perfume. Substância considerada inocente e até há pouco tempo tolerada pela sociedade. Tomei coragem e inalei a coisa. Os efeitos surgiram bem depressa. Um mistifório de helicóptero, liquidificador e carro de patrulha. Confesso que até estava achando agradável. Mas quando de repente, no meio daquela experiência sinestésica olhei para o lado e percebi que estava abraçado com um sujeito ultra boçal que eu mega detestava (Confraternizando como dois amiguinhos de infância) foi que tomei pé do perigo em que estava me metendo. Que raios de efeito é esse que castra todo e qualquer discernimento sobre quem somos e o que queremos. Acho que se fosse maconha ou cocaína teríamos feito amor ali mesmo. Anos depois ainda não consegui valorar o que foi pior: o gosto de desinfetante que só abandonou minha boca uns quatro dias depois ou ter perdido a virgindade com um cara que eu nem amava. Já faz minha cabeça um par de olhos e o pôr- do-sol...

sábado, junho 06, 2009

Terror na Madrugada.

Nunca me ajustei muito bem à vida social. Não gosto da maioria das pessoas e sempre preferi agir sozinho, fazendo as coisas do meu jeito, me esquivando de qualquer trabalho em equipe. Talvez por isso a Medicina Veterinária sempre figurasse em minha vida como sendo a primeira opção profissional. Lidar com animais sempre me pareceu mais simples. Nada de julgamentos, muito pouca reação. Logo depois de formado fui substituir uma amiga em alguns plantões. Rapidamente descobri que os anos de faculdade não haviam me preparado para tamanha aflição. Numa madruga fui acordado de supetão pelo enfermeiro para uma consulta. Instantaneamente fui tomado por uma onda de insegurança e desengano que se intensificou quando avistei no final do corredor o suposto paciente balançando seu rabinho e esbanjando total saúde e disposição. Que diabos aquele animal poderia ter de errado para fazer com que seus donos achassem que era necessário levá-lo ao veterinário em plena madrugada de domingo? Seria eu quem teria de descobrir. Não me lembro de outra ocasião em que desejei tanto que um corredor fosse mais longo. Cada segundo de análise era essencial. E como quis que fossem mais. Coloquei o bendito animal sobre a mesa e a única informação que os zelosos proprietários souberam me passar era que ele estava respirando mal e que outro animal tinha tido o mesmo sintoma e morrera em seguida. Excitante informação. Em meio a dúvidas e incertezas resolvi começar pelo começo. Tratei de pegar meu estetoscópio para ver (ouvir) se aquele coraçãozinho saltitante tinha algo a me revelar. Neste momento notei que o casal de proprietários acompanhava meus movimentos com os olhos como se já previssem um resultado específico. O que vale lembrar, só aumentou meu sofrimento. Reuni todas as minhas energias e as direcionei para os ouvidos numa tentativa desesperada de decodificar qualquer alteração. Qual não foi minha surpresa e contentamento em descobrir logo de primeira que se tratava de um sopro cardíaco, o qual causava um acúmulo de líquido no abdome do animal, que comprimia os pulmões e assim, dificultava a respiração. Agora, senhor do conhecimento, seguro e recomposto, podia encarar o casal e lhes passar meu veredicto. Mas foi somente após eu terminar minha genial explanação que eles se identificaram. Tratava-se de um casal de médicos que tinham um filho também médico e que numa espécie de Conferência Médica Familiar tinham examinado o animal e chegado à mesma conclusão. Até hoje não entendi o que eles procuravam naquele hospital veterinário às 03h30min da madrugada de um domingo. Um casal de médicos capazes de formar um filho na mesma profissão realmente precisava do parecer de um veterinário recém formado, desesperado e inseguro? Imagino que só queriam me torturar. São essas coisas que me fazem não gostar das pessoas.

Foto: Anibal Bastos

sexta-feira, junho 05, 2009

Nostalgia

Às vezes acordo rasgando de saudades de coisas que nunca fiz
mas que lembro nitidamente de tê-las feito ontem mesmo

Essa saudade de uma vida que nunca tive, só me faz esquecer
e perder um pouco mais a única que tenho agora

E sempre que me esqueço da vida que tenho agora
desprezo quem perdeu parte da sua só para conceber a minha

Percebendo isso, sinto ainda mais saudades daquela vida que não vivi
 quando o que existe hoje ainda nem era imaginável.

Motoqueiro Selvagem

Há cerca de um ano fui aprovado num concurso público. Como não sou dado a rotina do transporte coletivo decidi adquirir um meio de transporte próprio. Com meus recursos escassos e o apoio de meu espírito jovem e aventureiro a escolha foi óbvia. Qual homem jovem nunca sonhou em pilotar uma motocicleta? A sensação de liberdade. O vento no rosto. Não tive dúvidas. A escolha pelo modelo foi mais fácil ainda, afinal “La Poderosa” já figurava na garagem aqui de casa. Era do meu irmão mais novo. Emprego novo, motoca nova (nem tão nova assim). Eu estava com tudo. Mas como a alegria é passageira, com menos de um mês já havia metido os córneos no asfalto. Minha habilidade duvidosa aliada aos noventa e dois anos de um senhor desavisado e a esparrela estava armada. Num segundo liberdade e independência, no outro muita dor e constrangimento. Em meio à dor e a confusão foi um alívio saber que o ancião nem era mais autorizado a dirigir, pois àquela altura eu ainda nem tinha habilitação na categoria A. Refeito do susto e após um mês de espera La Poderosa voltou da oficina. Havia ganhado um banho de loja que me fez lamentar ter adiado tanto o fatídico encontro com o pobre senhor. Desfrutei da máquina por mais um tempo e pude notar que passei a chegar aos meus compromissos com um cheiro que mais parecia ter acabado de largar um turno de trabalho como frentista. Nada que uma dose extra de perfume não resolvesse. Então vieram as chuvas. E como choveu esse ano. Passadas as chuvas finalmente poderia curtir a motoca. Então chegou o frio. E como tem feito frio. Um dia desses meu irmão me convidou pra fazer uma trilha de moto com nosso primo. Chegando lá ao vê-lo todo equipado me dei conta de que meu primo era o único ali que sabia o que estava fazendo. Após subir e descer algumas ladeiras e acelerar forte por entre árvores e pedras minha moto já não me parecia muito diferente de uma cruz no calvário. Desde aquele dia eu e minha motoca nunca mais nos distanciamos do asfalto. Depois de quase um ano ainda não entendo muitos bem o que alimenta o tal “amor pela vida em duas rodas”. Não sei se é a textura do asfalto ou o cheirinho agradável. Sem contar as inúmeras camisas manchadas de óleo. Sei lá. Vai entender.

PS: Honda XR250 Tornado 2004/2005, vermelha, em ótimo estado
(droga, falei do acidente). O conserto ficou jóia.
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quinta-feira, junho 04, 2009

Triste sina


Durante anos vive assombrado pelo fantasma da calvície. Não importava para qual de meus ascendentes eu olhasse, ela estava lá. Mesmos os tios mais jovens já apresentavam os primeiros sinais do que parecia ser um carma. E assim foi. Um após o outro todos caíram como que numa fila de pedras de dominó. E por muito tempo pensei numa maneira de me esquivar de tal destino. Mas ao observá-los percebi que todos se resignavam e alguns até passavam a ostentar sua carequice de forma imponente. Compreendi que tal comportamento se devia ao exemplo de nosso patriarca, meu avô. Seu caráter e retesa de comportamento pareciam tê-lo livrado de qualquer vaidade mundana. E por admirá-lo ao extremo e sempre querer seguir seus passos, também eu já tinha me resignado. Havia decidido que quando minha hora chegasse, e minha cabeleira me deixasse, aceitaria com bravura. Então semana passada tudo mudou. Como de costume fui à casa de meus avós para ouvi-los contar histórias do passado, e em meio a um dos causos meu avô me fez uma revelação inesperada. Disse-me que de todas as alterações que o desgaste do tempo (já se vão 77 anos) e o trabalho pesado havia causado em seu corpo, não eram as rugas, nem os males da chagas, tão pouco a perda de parte da visão era o que mais o incomodava. De todas as alterações a única que ele ainda lamenta é a perda de seus cabelos. Naquele momento, como que num toque de mágica, ele retirou toda a culpa de meu peito. Bem ali na minha frente, o careca mor da família revelava que também ele não queria a carequice. Aprendi nesse dia que caráter e retesa de comportamento não são avessos à vaidade. E eu já tomei minha decisão. Finasterida aí vou eu!!!!
Foto: Fernando Ducatti